terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Verão: sombra, água fresca e o meu perfume. Resenha do perfume Les nuits d'Hadrien, de Annick Goutal.





     Na rodada do mês com as versões dos blogs de perfumaria brasileira sobre cheiros de veraneio, resolvi homenagear um perfume cuja aquisição foi por mim bastante almejada. Fiz uma escolha assz pessoal de um cheiro "sapiente e salutar" para o verão, já que o escolhido é o que podemos chamar de "perfume literário". Falo de Les Nuits d'Hadrien de Annick Goutal ,criado inspirando-se nas memórias do sábio Imperador Adriano , da dinastia nerva-antonina, o pai da Palmyra Adriana,  "the Venice of the sands"(agora duramente destruída, desfigurada pelo ISIS, conto com o coração confrangido). 
    Adriano foi propagador do helenismo, arquiteto de talento e mesuras, conciliador, filósofo estoico, ora permeado pelo epicurismo, amante das paisagens, do temperamento grego e de suas influências no sul da Itália.
    O perfume é inspirado numa experiência salutar, no desfrute de um  céu estrelado, sob brilho lunar numa  noite  de veraneio em plena Toscana, quando Adriano derrama suas vicissitudes, beleza e inteligência, ao lado de seu amado  Antínoo,  tendo seu amor inspirado desde livros como "Memórias de Adriano" de Marguerite  Yourcenar  a poemas como o de Fernando Pessoa sobre Antínoo.



     É um perfume eivado de história, e como toda história, nos é imposta para que possa ser apreciada. Deste modo sentir Les Nuits D'Hadrien(As noites de Adriano) vai além de se refrescar com seu aspecto aromático e tônico; é adentrar nas frestas dessa história que, cheirando-a, parece transponível e próxima.
     Ao sentir o perfume cítrico aromático criado em 2003 por Isabelle Doyen e Camille Goutal, 
vem-nos o mar de Capri,  o mediterrâneo, os citrinos que encantam os amantes, que perfumam seus corpos. Vem a brisa marítima, a embriaguez do limoncello ,do licor de alcaravia,  do gim zímbrico.Que noite fresca, cítrica e mentolada é o perfume Les Nuits D'Hadrien! E como é possível aspirar nele  um pouco da inteligência e civilidade estupenda de Adriano! Ah! O seu gosto pelo simples(que é tão complexo)! Seu naturalismo benfazejo. O amor pela arte clássica, conservadora Um homem capaz de valorizar o passado,  restituindo-o, como fez com o Panteão. Um profundo propagador do Philhellenism.
     O amor  de Adriano ao ar fresco,  a cultura clássica, aos jardins e pomares foram eternizados em obras como a Vila Adriana em Tivoli, representação de sua incansável admiração pela estética, assim como  também em sua  Palmyra(que depois dele, se tornou para sempre a Palmyra Adriana, a menina de seus olhos, o magnífico oásis de beleza e cultura no Deserto) e em construções como o Templo de Vênus e Roma.
      Há uma qualidade que se pretende esteta nas noites de Adriano. É uma fragrância arbórea, estrelada, contemplativa. Parece que Adriano olha os céus com seus olhos clínicos de um homem que amava a astrologia. Há o espirito desbravador e livre.

Hadrian  villa ruins



Page: Hadrian Visiting a Romano British Pottery Artist: Sir Lawrence Alma-Tadema Completion Date: 1884 Style: Romanticism Genre: history painting Technique: oil Material: canvas


Teatro Maritimo. Vila Adriana.



        Considero esse perfume comunicativo, quase epistolar  tal como pretendeu Marguerite Yourcenar em seu livro "Memórias de Adriano", em que faz do Imperador um mestre a segredar a seu sucessor, Marco Aurelio, dizendo-lhe de glórias  e tragédias  aqui tão paisagísticas e bonitas. Falando-lhe de seus amores ao passadismo, do culto ao helenismo e de sua paixão profundo pelo tão belo e para sempre jovem Antínoo, eternizado  após sua misteriosa e antecipada morte como um Deus menino por seu amado Imperador.
     Os perfumes de Annick Goutal são quase sempre sentimentais e missivistas. De alguma forma, subordino-me ao seu chamado, enverado-me nas qualidades interpretativas do perfume, que tirando as notas, são sempre  considerações sumamente pessoais.
     A noite dos amantes, pois, está para mim acessível. Está tragável como um cheiro. É entusiasta como um cipreste conífero entoando seus ventos. Um vento mentolado. Fagueiro.
Está pronto o limoncello, adoçado pelo langor das bergamotas. Que cheiro doce de citrinos pode ter uma memória. E de bebidas e bebidas salutares os amantes se saúdam. Junta-se o quê do zimbro, baga arguta, tônica, temperada. Remoça-se Adriano com seu jovem Antínoo. Para sempre se perfumam e se avizinham.

      Les nuits D'Hadrien propõe uma noite álacre, cheia de argucia e vitalidade, eivada de alegria dada pela força cítrica,  com frutos extremamente naturalistas, com ar bastante transparente e fresco, com força nutriz, como o sábio Adriano venerava. Para Adriano nada melhor que o fruto em estado puro. Nada poderia ter mais cheiro da imortalidade que um fruto fresco. 


"Comer um fruto é fazer entrar em si mesmo um belo objeto vivo, estranho e nutrido como nós pela terra.” 

    O perfume tem  o cheiro da abundância nutriz do sul da Itália,  com seus frutos e condimentos, a alegria dos licores e limoncellos temperados com alcaravia(cariz ou kümmel, que lembra um tanto erva doce) e zimbro dos festins, os pomares verdejando com o manjericão, adoçados por baunilhas em fava.
    Um cheiro extremamente aromático ,com forte pendor de ciprestes prolongados pelo lado anisado da alcaravia e do zimbro vai se construindo.
    O resultado do perfume é rústico, naturalista , vocacionado para a meditação. Cheio de simplicidade elegante.Na versão eau de toilette não perdura mais que cinco horas, o que é normal para um cítrico aromático.
   Aspiramos pois a sensação incrível de se emaranhar na memória fresca  de ervas, frutas e ciprestes, uma experiência ostensiva, quase sacra, resgatando as memórias sublimes das noites do sábio Adriano.
   Pena que dure pouco esta sensação. Mas é um laivo de frescor senti-lo. De beleza vívida, de reparo de ruínas. Floresce um pálido amor.  Renasce o amor ao belo. O amor do grande arquiteto e esteta Adriano pela vida.  Vênus Felix se exibe, em seu templo eterno de beleza. Antínoo,  belo, nos sorri. O Pantheon mostra-se em seu vigor.

antinous pio clementino


Venus Felix.


Palmyra, por instantes, é novamente a Veneza das areias, se arboriza com nossas narinas. Renasce das ruínas.





Meu pranto para Palymira. E o pranto de Pessoa, para Antinoo.


..."Antinoo está morto, morto para sempre,
Está morto para sempre e todos os amores lamentam.
A mesma Vénus, que de Adónis foi amante,
Ao vê-lo redivivo então, e de novo morto agora
Oferece o renovo de seus antigos soluços: que somados sejam
Ao sofrimento de Adriano.

Apolo está triste: o ladrão
Do seu corpo branco arrefeceu para sempre.
Nem pacientes beijos na rosa do mamilo
Sobre o sítio mudo do bater do coração, lhe devolvem
A vida para abrir-lhe os olhos, fazer que sinta a sua
Presença no correr das veias, firme fortaleza do Amor.
Nenhum calor ficou de outras suas calorosas exigências.
Não voltará a ter sob a cabeça as mãos,
Do oferecido corpo que outras mãos imploram.

A chuva cai; ele está deitado como alguém
Que esqueceu todos os gestos do seu amor
E fica deitado à espera do seu cálido regresso.
Mas todas as suas artes e jogos estão agora com a morte.
Nenhum calor pode demover este humano gelo;
Nenhuma chama pode acender estas cinzas de um fogo."..

Fernando Pessoa.

Verifiquem as demais postagens dos blogs de perfumaria com o tema de verão sombra e agua fresca e um perfume!

Lu em floral e amadeirado
Carla em Pimenta Vanilla
Di em A louca dos perfumes
Pri em Parfumee 
Fotos fontes:http://paleonerd.com.br/2015/06/11/adriano-e-antinoo-todo-mundo-ama/

9 comentários:

  1. Nossa, ainda neste últimos dias eu me deparei com uma amostra dessa fragrância, usei e anotei o que achei. Preciso encontrar a anotação mas lembro que senti manjericão e hortelã numa base seca. Ótima comparação feita em mais um belíssimo e inspirado texto.
    Bjus, Cris!
    Li

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  2. Mon Dieu, essa resenha é um poema histórico de amor! Correu uma lágrima aqui. Dá até vergonha de publicar algo no meu Blog com uma homenagem assim. Parabéns linda Cris, sempre considero os teus textos mais belos e trabalhados. Bjs da K

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  3. Cris, rendo-me a sua prosa! Menina, cada dia melhor! Pude sentir o cheiro da árvores que margeavam Palmyra...

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  4. Cris, está belíssimo!!!
    Tem um ritmo lindo de se acompanhar, é poético e tão cheio de sentimento que estou transbordando! Parabéns!

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  5. Annick Goutal, História e Mitologia, Imagens de monumentos... Esse post merece uma moldura! É muita coisa boa reunida! Les nuits d'Hadrien tem algo de gim, acho que é impressão do zimbro, que dá uma certa ousadia, de festa noturna no jardim. Lindíssimo post, pesquisado, bem elaborado. Um prazer de leitura!
    Muitos beijos!

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  6. Parabéns pelo trabalho! Permita-me divulgar http://perfumeja.blogspot.com.br/

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  7. Parabéns pelo trabalho! Permita-me divulgar http://perfumeja.blogspot.com.br/

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  8. Isabelle de Lacerda9 de fevereiro de 2016 13:59

    Parabéns pela primorosa resenha/aula de história.Continue compartilhando connosco as suas belíssimas incursões no universo estetico multisensorial da perfumaria. Bjs

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  9. Excelente artigo, muito boom!!
    http://www.i9lifeperfume.com.br/

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